terça-feira, 28 de junho de 2011

UMA AMOSTRA DO MEU TRABALHO COMO ROTEIRISTA


                    QUE PAÍS É ESTE?



Um roteiro de Jorge Lobo, adaptado de um conto de Medeiros e Albuquerque (em domínio público)

Obra registrada na Ministério da Cultura – No. Registro: 379.606 ; Livro: 704; Folha: 266

 

PERSONAGENS

JONAS (PROTAGONISTA)

PRESIDENTE DA REPÚBLICA (ANTAGONISTA)

GAROTO MENDIGO

MARCELO

HOMEM ENGRAVATADO (EMISSÁRIO DO GOVERNO)

CABOCLO JOÃO FRANCISCO

FRANZ

HOMEM ALTO (AGENTE DO GOVERNO)

FIGURANTES
                                                                ROTEIRO

QUE PAÍS É ESTE?

PRÓLOGO


NARRAÇÃO E LETREIRO: fundo preto, letras brancas

Em 2030, o Brasil assiste ao governo de um novo presidente da república.Eleito pelo povo, faz uma  política de forte alinhamento aos Estados Unidos. Nessa nova ordem, ele torna o Rio de Janeiro novamente a capital do país(“para dar mais transparência ao governo”, foi o que ele disse. Bem, isso foi o que ele disse...) e chega até a contaminar os reservatórios de água com substâncias que emburrecem as pessoas para minar as resistências ao seu governo, prática já usada pelos americanos em sua própria população e cuja tecnologia cederam ao Brasil. Poucos são os que sabem disso, como os comunistas(nesse ponto da narração, há uma CENA – um COMUNISTA, homem jovem, de ROUPAS VERMELHAS APARECE NA TELA EM FUSÃO COM OS LETREIROS E GRITA: “quem acreditaria?”, fim da CENA), que anseiam pela chegada ao poder.Jonas, nossa personagem principal é um desses comunistas insatisfeitos.


FADE IN:


 1 – INTERIOR – APARTAMENTO  DE JONAS – DIA


Aparece um CARTAZ com uma  FOTO do PRESIDENTE DA REPÚBLICA colada numa porta.O cartaz é mostrado de cima pra baixo, isto é, vemos a foto, onde, em cima  dela, no cartaz, está escrito: o nosso presidente. Um dardo acerta o rosto do presidente.Uma MÃO escreve, então, com um pincel atômico, no espaço em branco do cartaz, abaixo da foto, a seguinte frase: o idiota do ano.

JONAS, personagem principal, homem de 40 anos, branco, cabelos curtos e morenos, pega um copo na cozinha, vai até a garrafa(tipo garrafão) de água mineral e bebe.

JONAS
Ahh!


 2 – EXTERIOR – DIA

JONAS caminha pelas ruas do centro do Rio de Janeiro(Ao largo do PALÁCIO TIRADENTES).


JONAS
(ANDANDO, VOICE OFF)

Ninguém compreendera por que eu fora nomeado ministro...

Um GAROTO MENDIGO, vestido com roupas simples e um pouco rasgadas, aborda Jonas.

GAROTO MENDIGO

  Moço, o senhor pode me arranjar um trocado, com todo o respeito?

JONAS

Com todo o respeito?Que país é esse?Pelo amor de deus!Hum! como se eu acreditasse nele!Ah !Quer saber de uma coisa?Não vou te dar trocado nenhum, não vale a pena, não!

 GAROTO MENDIGO

Ô moço!Quê isso?!Tudo vale a pena se a alma não é pequena!

JONAS

                   Hum!Isso, dito por um idiota, fica mais idiota!Tá bom, já me convenceu!Toma o seu trocadinho aí e não enche o saco!


                    
Jonas tira do bolso uns  trocadinhos e entrega ao garoto mendigo.


3 - INTERIOR – PALÁCIO DO CATETE – SALA DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA – DIA

Vemos uma FOTO do presidente da república(com os dizeres“o nosso presidente”) e o ângulo abre para revelar o PRESIDENTE DA REPÚBLICA, que está sentado à sua mesa, fumando um charuto, com uma cara de contentamento, e o resto de seu gabinete. Na sala do presidente há duas cadeiras postadas em frente `a MESA na qual ele se apóia, vários PAPÉIS sua mesa, um TELEFONE, uma pequena BANDEIRA DO BRASIL e alguns QUADROS na parede, alguns de pintores, outros de fotos do presidente apertando a mão de autoridades na inauguração de obras, uma OUTRA MESA mais a frente com mais duas cadeiras em volta.Alguém BATE à porta.

PRESIDENTE DA REPÚBLICA

Pode entrar!

  Um ASSESSOR ENTRA, com um ENVELOPE de CARTA na mão.

PRESIDENTE DA REPÚBLICA

                Fala, Marcelo!


MARCELO
(colocando a o envelope na mesa)
                   
Presidente, pro senhor!

O presidente da república tira a carta do envelope, começa a ler e, pouco a pouco, vai estampando um sorriso, ao mesmo tempo em que entra a voz over.

JONAS(VOICE OVER)

Um belo dia, o presidente havia recebido uma carta anônima.

4 – EXTERIOR – PRAIA - DIA


JONAS está na praia, parado, olhando pro mar.

JONAS(V. OFF)

Ela lhe dizia que o autor queria que ele nomeasse para o cargo de ministro da fazenda um dos nomes da lista que se seguia. E vinha, por ordem alfabética, uma série de vinte e cinco nomes.Entre eles estava o meu: o único aceitável.Os outros eram de operários comunistas, de tipos sem compostura, de inimigos pessoais do presidente.Eu era aí uma espécie de “carta forçada”. A ter de de se fazer a escolha naquele menu, não havia remédio senão engolir-me.

Jonas caminha pela praia olhando as ondas.

 5 – INTERIOR DE UM RESTAURANTE – DIA


JONAS, num RESTAURANTE, têm seu prato servido por um GARÇOM, que bota um lenço em volta de seu pescoço.

JONAS(V.OFF)
Você vai ter que me engolir!
           


 6 – INTERIOR – PALÁCIO DO CATETE – SALA DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA - DIA


O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, fumando UM CHARUTO, lê a CARTA sorrindo.


JONAS(V.OVER)
        
O missivista prevenia o presidente que, a partir daquele dia até que ele fizesse a nomeação, iria matando várias pessoas gradas.Para que ele visse que essa ameaça não era vã, prevenilo-ia sempre com antecedência de que alguém ia morrer.Começaria por homens notáveis, indiferentes ou inimigos do chefe do Estado, passaria a parentes desse e acabaria, se fosse preciso, por ele mesmo.Chamava-lhe a atenção para que a sua demora em ceder à intimação custaria um número de vidas cada vez maior.E acabava anunciando:  hoje mesmo ou amanhã morrerá o senador Eustorgio.

O presidente da república, sorrindo e continuando a fumar o charuto, amassa a carta e a coloca em cima da mesa.

PRESIDENTE DA REPÚBLICA
(fumando o charuto)

Mais um engraçadinho!

 O presidente da república faz menção de atirar a carta ao cesto mas pára, hesitante e começa a discar um número ao telefone.

PRESIDENTE DA REPÚBLICA
(fumando o charuto)

Alô!Senador Zé Maria!?É o presidente! Como que presidente?Acorda, Zé Maria! Não quer nada com a hora do Brasil, é? (áudio: começo do primeiro trecho de O Guarani, de Carlos Gomes) Escuta!O sr. sabe me dizer, com todo o respeito, se o Senador Eustorgio esteve aí hoje?(áudio: fim do trecho de O Guarani) ... esteve?Ele estava bem? Ok, muito obrigado!

O presidente da república atira a carta no cesto de lixo.

FUSÃO PARA:

7 – INTERIOR – PALÁCIO DO CATETE – SALA DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA - DIA

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA está sentado à mesa brincando com uma faca, passando uma FACA entre os dedos até que acerta um dos dedos sem querer.

PRESIDENTE DA REPÚBLICA

 Aii!Droga!Maldita faca!

O telefone toca e o presidente da república atende.

PRESIDENTE DA REPÚBLICA
                  
                   Alô?!O quê!?Morreu?De quê?Abafar o caso?O quê?

O presidente da república desliga o telefone com força, levanta de sua mesa, anda rapidamente até o cesto de lixo e pega a carta que tinha amassado e jogado fora, a desamassa e fica olhando pra ela com olhar de preocupação.



 8 – INTERIOR – PALÁCIO DO CATETE – SALA DO PRESIDENTE – DIA

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA está sentado à sua mesa, olhando para Marcelo, que está em pé.

PRESIDENTE DA REPÚBLICA

E Então?

MARCELO

O chefe de polícia já deu ordem pra vigiarem de perto todos os nomes da lista e grampearem todos os telefones.

PRESIDENTE DA REPÚBLICA

Ótimo!


 9 – INTERIOR DE UMA CELA – NOITE


Um homem alto, encapuzado,  numa sala iluminada por apenas um pequeno lustre, anda de um lado para o outro e olha para um HOMEM amarrado à uma cadeira.

HOMEM ALTO
(dando um “telefone” no homem amarrado)

Fala desgraçado!Comunista de merda!

 10 - EXTERIOR

JONAS, andando na rua, dá um leve olhar pra trás, onde um HOMEM de JAQUETA MARROM o segue a 20 metros de distância.O homem de jaqueta marrom disfarça quando vê que Jonas o olha e anda em outra direção.Jonas ENTRA numa CASA( onde se lê na sua porta de entrada: ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA), abrindo a porta com uma chave.

JONAS(V.OFF)

Não foi difícil perceber que estava sendo vigiado. Sabia também que meu telefone estava grampeado... Mas eu era um cidadão acima de qualquer suspeita...


 11 – PALÁCIO DO CATETE  - GABINETE DO ASSESSOR MARCELO – DIA

MARCELO está sentado à sua mesa em sua sala e atende ao telefone.

MARCELO

Alô?

VOZ AO TELEFONE

                           Diga a S. Exa. que hoje morrerá um Deputado.

Marcelo levanta rapidamente de sua cadeira, SAI e VEMOS a sala vazia e o ângulo fecha na pequena bandeira do Brasil tremulando levemente.


12 – INTERIOR – APARTAMENTO DE JONAS -  DIA

JONAS, de PIJAMA, deitado em seu SOFÁ, lê um jornal em que se lê na MANCHETE: SELEÇÃO PARTE FIRME PARA DERROTAR “LOS HERMANOS” ARGENTINOS, abaixo se lê: MORRE O DEPUTADO MALTA DE COMPLICAÇÕES CARDÍACAS e mais abaixo diversas fotos de jogadores de futebol.

A campainha toca, Jonas joga o jornal no sofá, se levanta e abre a porta.

Ao abrir a porta, Jonas se depara com um homem engravatado.

HOMEM ENGRAVATADO

Bom dia, sr. Jonas!O excelentíssimo presidente da república mandou entregar isso ao sr., com todo o respeito.

 O homem engravatado entrega um envelope a Jonas.

 13 – INTERIOR – PALÁCIO DO CATETE – SALA DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA – DIA

Jonas está sentado na cadeira em frente ao presidente e sua mesa.

PRESIDENTE DA REPÚBLICA

O sr. sabe provavelmente para que o mandei convidar.

JONAS

Absolutamente, não. Se o Cardeal-Arcebispo me mandasse convidar, eu não teria maior surpresa.

JUMP CUT PARA:

14 – INTERIOR – PALÁCIO DO CATETE – SALA DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA - DIA

JONAS está jogando XADRÊS com o presidente em sua sala. Cada um faz seus movimentos.

JONAS(V. OFF)

O presidente me disse então do que se tratava : convidava-me para ministro da fazenda e prometia-me toda a autonomia.Era isso o que mais lhe pesava. Porque a carta cominatória exigia que ele desse ao ministro o máximo de autonomia, aprovando todos os seus atos, sem discutir.E isso não podia deixar de repugnar ao seu caráter dominador e autoritário.Objetei a minha incompetência, tive a dose precisa de modéstia, mas acabei aceitando.E nessa mesma noite a notícia da estranha nomeação encheu de espanto a cidade.

Jonas coloca em xeque o REI do presidente.

JONAS

Xeque-mate

15 – INTERIOR – APARTAMENTO DE JONAS – NOITE


Jonas, sentado numa POLTRONA, dá um leve sorriso, levanta, se dirige à cozinha, pega um copo, bebe um copo de água mineral e sorri novamente.Anda pela cozinha até chegar à janela e olhar pro horizonte.


16 – INTERIOR – CASA DO CABOCLO JOÃO FRANCISCO - DIA


Um CABOCLO, com uma cobra nas mãos, espreme com as mãos, pressionando um dente de cobra, o veneno dentro de um pequeno frasco.

JONAS(V. OVER)


Anos antes, viajando no interior, eu estivera em relações com um velho caboclo que se especializara em curar dentaduras de cobras.Ele manifestava especial predileção por um frasquinho, que dizia conter o veneno de uma cobra e sei lá mais eu que diabos de substâncias que, dizia ele,  não havia ainda sido descoberto pela ciência e que mantinha cuidadosamente fechado.O vidro teria umas trinta gramas de capacidade.Mas o caboclo freqüentemente o apontava, dizendo: 

CABOCLO
(com o frasquinho nas mãos)

         Com isto se poderia matar todo homem vivente criado por esse mundo inteiro.

Jonas

Qualé, João Francisco!Você está exagerando.

              CABOCLO JOÃO FRANCISCO
(FALANDO COM A VOZ DE JONAS, VÊ-SE JOÃO FRANCISCO ABRINDO A BOCA MAS É A VOZ DE JONAS QUE SAI DE SEUS LÁBIOS)

          Ele sustentava, porém o contrário – e era quem tinha razão.


 17 – INTERIOR – CASA DO CABOCLO – NOITE


O CABOCLO JOÃO FRANCISCO geme em sua cama, ao lado de duas mulheres, uma mais velha e outra jovem, que olham pra ele com cara de tristeza. Cada uma das mulheres segura uma mão do caboclo.Jonas observa a cena postado, em pé, perto do pé da cama. Caboclo João Francisco dá seu último suspiro e morre.As duas mulheres se agacham e choram de encontro ao peito de caboclo João Francisco.JONAS se dirige à saída quando vê o FRASQUINHO COM VENENO numa ESTANTE.

 JONAS(V.OFF)

Meti-o no bolso do colete e...

Jonas bota o frasquinho no bolso do colete e SAI.


 18 – INTERIOR – APARTAMENTO DE JONAS - DIA


A voz off cobre a cena em que JONAS fala com FRANZ,  operário polaco.Franz tem uma bengala nas mãos. Os dois sorriem mas não há áudio, excetuando-se a voz off. Na mesma sala, Franz mostra uma bengala para Jonas, abre ela, aponta para o cano, para uma MOLA, Jonas pega a bengala, Franz pega ela de volta, atira numa tábua e aponta para o lugar.


JONAS(V. OFF)

Muito depois eu vim a conhecer um operário polaco, muito hábil, mas já velho, que empreguei em minha casa.Era hábil, inteligente e cheio de idéias revolucionárias.Foi ele que me construiu uma espécie de espingarda com ar de comprimido, cujo tubo não excedia o diâmetro de um milímetro e o comprimento de um metro.Tinha o formato de uma bengala, uma bengala simples, que não chamava em nada a atenção.Vi que se lhe poderia pôr como projétil um pedaço de agulha das que se usam nas seringas de injeções hipodérmicas – dois centímetros apenas.

 19 – EXTERIOR - DIA


A voz off cobre a cena. JONAS observa um cavalo, atrelado à uma carroça, a poucos metros de distância.Quando o condutor desmonta e se afasta da carroça, Jonas acende um cigarro e atira com a bengala.

JONAS(V.OFF)

Fui ao haras de um conhecido e postei-me ao lado de um cavalo que puxava uma carroça, parei naturalmente e, quando fingia acender um cigarro, calquei a mola e a agulha partiu, enterrando-se no animal, que fez enrugar o pêlo, como para espantar alguma mosca.Menos de dez minutos após o animal deixou-se cair.Aproximei-me então cuidadosamente e quando o vieram buscar ele já estava morto.Por quê?Ninguém sabia.


 20 – INTERIOR – APARTAMENTO DE JONAS - DIA

JONAS está sentado em frente a FRANZ, que também está sentado em uma cadeira.

JONAS(V. OFF)

Só então me abri com Franz e disse-lhe o que tinha a fazer.Ele se mudaria e eu lhe dei o necessário para alugar casa.Dei-lhe uma lista dos que deviam ser eliminados: nunca mais de um por dia.

Franz se ajeita na cadeira.

JONAS

O ministério da fazenda é o ministério mais poderoso. Convém começar por ele.Depois, eu farei, pelo mesmo processo, com que o presidente se bata pela minha candidatura para seu sucessor, e elimino, se for preciso, os meus competidores.


Franz

Como atacá-los?


 21 – EXTERIOR – CENTRO DO RIO - DIA

Franz segue um congressista(Senador Eustorgio), que tem 2 seguranças às suas costas e a 2 metros de distância, com a bengala carregada na mão horizontalmente, apóia na mola, que ficava no meio e a agulha enterra-se nas costas da vítima.Franz se afasta para o lado contrário caminhando com a bengala sem que os seguranças o vejam e segue andando pela rua.

FRANZ(V.OFF)

Eu matei ele sim mas foi com todo o respeito!


  22 – INTERIOR – CASA DE JONAS – NOITE

A voz off cobre a cena em que JONAS E FRANZ se abraçam.

JONAS (V.OFF)

Franz era inteligente. Compreendeu tudo muito bem. Porém, no dia da minha nomeação ele me apareceu, bêbado, e isso me deu a noção do perigo daquele cúmplice que podia comprometer-me.Vi que era preciso elimina-lo.

JONAS
(entregando uma garrafa de vodka a Franz)

              Beba, Franz, hoje é dia de festa!Estamos comemorando o primeiro passo da revolução!


23 – EXTERIOR – APARTAMENTO DE JONAS -  NOITE


No pequeno quintal de Jonas, Franz dorme numa poltrona. Jonas aplica-lhe uma agulhada. No sono, sentindo a picada, FRANZ leva a mão para coçar o ponto machucado.


 24 – INTERIOR – PALÁCIO DO CATETE – SALA DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA - NOITE

JONAS entrega papéis ao PRESIDENTE DA REPÚBLICA. O presidente da república lê, se mexe pra trás na cadeira e faz uma cara de horror.

PRESIDENTE DA REPÚBLICA
(com a voz desanimada)

O que o sr. quiser... O que o sr. quiser...

O presidente da república assina os papéis.O presidente da república estende a mão para Jonas e se despede dele.


JONAS sai da sala do presidente da república e anda pelos corredores do palácio do Catete.

JONAS (V.OFF)

Eu via perfeitamente o que se passava no seu espírito. A medida lhe repugnava profundamente, mas ele tinha medo de negar a assinatura e tornar-se assim responsável por alguma nova morte.


 25 – EXTERIOR – RUA - DIA – ÁUDIO EM TODA A CENA: SOM DO ASSOBIO DE UMA VENTANIA

Num PLANO EM MOVIMENTO, nos dirigimos pela rua até PARARMOS em uma MANCHETE DE JORNAL com os dizeres:

O FIM DE UM HOMEM DE BEM: PRESIDENTE MORRE DE ATAQUE CARDÍACO(ABAIXO A FOTO DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA SORRINDO)

VICE-PRESIDENTE ASSUME E PROMETE RENOVAR TODO O MINISTÉRIO(ABAIXO, A FOTO DO VICE-PRESIDENTE, DE GRAVATA)


 26 – INTERIOR – APARTAMENTO DE JONAS – FINAL DA TARDE

Aparece um cartaz com uma foto do presidente da república colada numa porta. O cartaz é mostrado de cima pra baixo, isto é, vemos a foto, onde, em cima dela, no cartaz, está escrito: o nosso presidente. Embaixo, a inscrição em pincel atômico com os dizeres: o idiota do ano.

JONAS

 Bom, pelo menos...

 JONAS pega um DARDO numa MESA ao seu lado, joga o dardo e acerta a foto com o rosto do presidente.
JONAS

HÁ HÁ HÁ HÁ!HUM?!(SURPRESO)

POV(POINT OF VIEW, PONTO DE VISTA) DE JONAS

Na porta, a foto que agora está colada é a do próprio Jonas com os dizeres de o idiota do ano.

VOLTA À CENA

JONAS(V. OFF)
(parado em pé, desanimado)

O que fazer?Recomeçar?Achar outro cúmplice?

Jonas caminha até uma estante, abre uma gaveta, pega o FRASQUINHO DE VENENO, vai até o banheiro e entorna o conteúdo na privada.

JONAS(V. OFF)

         Tive medo de mim mesmo.Acabo de entornar o frasco de veneno.A tentação podia voltar.

Num PLANO EM MOVIMENTO, saímos do banheiro, caminhamos pelo corredor e vamos em direção à janela, vemos a paisagem da janela durante alguns segundos.Voltamos em PLANO EM MOVIMENTO e a luz da sala onde está a janela se apaga, ainda em PLANO EM MOVIMENTO A CÂMERA SEGUE, passa pelo corredor, a luz do corredor se apaga e seguimos até à cozinha onde vemos Jonas pegar um copo, abrir o filtro e tomar água do filtro. A luz da cozinha se apaga

FADE OUT

FIM


JUSTIFICATIVA



  • Baseado em um conto de Medeiros e Albuquerque, membro da Academia Brasileira de Letras no começo do século 20, autor cuja obra na qual baseou-se o roteiro se encontra em domínio público, QUE PAÍS É ESTE? é uma mistura de policial com ficção política. O resgate de um autor como Medeiros e Albuquerque (que não têm nenhum livro atualmente disponível nas livrarias em catálogo) é importante e mostra que a literatura nacional ainda tem muitas contribuições a fazer ao cinema brasileiro. Sua habilidade no manejo da história policial e, mais do que isso, na mistura habilidosa da história policial com a trama política faz do conto de Medeiros uma pérola esquecida. À volta de um governo ditatorial, disfarçado de democrático, se contrapõe a figura de Jonas, um comunista muito engenhoso que prepara um plano para tomar o poder. Num mundo em que as utopias comunistas perderam muito de sua força do passado, Jonas é um cavaleiro solitário em 2030, um homem que trabalha praticamente sozinho e não mede esforços para que seu plano dê certo. A crítica às práticas ditatoriais (mesmo em se tratando de um governo eleito) e ao alinhamento aos Estados Unidos acaba justificando a atitude de Jonas, que certamente não é irretocável do ponto de vista ético, aliás, prática política maquiavélica bem atual, isto é, “os fins justificam os meios”, mas há que se ressalvar no entanto, que essa idéia de Maquiavel era descritiva e não prescritiva e Jonas é um homem que acredita em um sonho e não vê outra alternativa senão usar toda a sua inteligência na armação de um plano para “destronar” o presidente. Acrescentei, na minha versão, um toque de ficção científica - a água que emburrece as pessoas. É um alerta, pois até que ponto não somos dominados pela manipulação das informações e por uma postura passiva e crédula forjadas pela ideologia dominante e, em verdade, capitalista?Até quando iremos agüentar a falta de um sistema de comunicação democrático e pluralista no Brasil? A destacar, também, o uso da expressão “com todo o respeito”,  praticamente um mantra que mostra, por oposição, que o respeito está ausente das atitudes dos que dizem a expressão. O conto de Medeiros e Albuquerque pode ser encontrado na antologia “OS 100 MELHORES CONTOS DE CRIME E MISTÉRIO DA LITERATURA UNIVERSAL” (org. de Flávio Moreira da Costa, Ediouro).


Uma observação “pretensiosa” de Jorge Lobo: a adaptação de um texto literário para cinema tem que ser livre. A partir do momento em que o roteirista decide fazer uma adaptação para cinema a história passa a ser dele. As linguagens literária e cinematográfica, apesar de terem pontos em comum, são diferentes. Não devem existir preocupações como manter a atmosfera ou ser fiel ao texto literário adaptado. O roteirista tem que dar asas á sua imaginação e ponto final.

 SINOPSE

 N
o Brasil de 2030, Jonas, personagem principal, quer dar um golpe no governo brasileiro. Fortemente alinhado aos americanos e contaminando a água com substâncias que emburrecem as pessoas, fato conhecido por poucas pessoas, Jonas sendo um dos que sabem,  esse governo desagrada profundamente a Jonas. Comunista e insatisfeito, ele trama o golpe mandando para o presidente uma lista com vinte e cinco nomes para ele escolher um e nomeá-lo para o ministério da fazenda, caso contrário, mortes de pessoas ligadas ao presidente aconteceriam. Essa lista, propositalmente contém vinte e quatro nomes inaceitáveis e só um que não é: o próprio Jonas, que não é comunista declarado. A carta exige, também,  que ele dê ao ministro o máximo de autonomia, aprovando todos os seus atos, sem discutir. Quando a primeira morte anunciada acontece, o presidente multiplica os interrogatórios, visando interrogar, principalmente, os comunistas, mas não obtêm êxito, já que Jonas trabalha praticamente sozinho. Ele coloca, também, homens vigiando os nomes da lista mas Jonas não demonstra ser suspeito de nada. As mortes acontecem e o presidente, pressionado, acaba nomeando Jonas para o ministério.Como Jonas preparou seu plano?Ele conseguiu veneno de cobra com um caboclo, melhor dizendo, roubou o veneno,  e arranjou um cúmplice também comunista para matar suas vítimas de forma sorrateira, usando uma arma discreta: uma bengala que na verdade é uma arma que dispara uma agulha cheia de veneno de cobra. Quando esse cúmplice, devido à embriaguês, se revela uma ameaça aos planos dele, Jonas o elimina. Jonas propõe uma medida ousada ao presidente, que se sente obrigado a aceitar, temendo uma nova morte.Transtornado, porém, pela medida que acabava de aprovar, o presidente acaba morrendo de ataque cardíaco e frustrando os planos de Jonas, já que o vice-presidente assume e renova todos os ministérios. Sem ânimo para arranjar um novo cúmplice, Jonas acaba, devido a esse desânimo, achando melhor beber água do filtro para emburrecer.



AGUARDO COMENTÁRIOS, SEJAM POSITIVOS OU NEGATIVOS.

Att.

Jorge Lobo

quarta-feira, 1 de junho de 2011

OS LOBOS ESTÃO POR AÍ!!!



RADIOHEAD - MÚSICA: "WOLT AT THE DOOR"; LOBÃO - "DA NATUREZA DOS LOBOS" + LOBÃO - AUTOBIOGRAFIA "CINQUENTA ANOS A MIL" (VALE A PENA LER); DIO - DISCO: "LOCK UP THE WOLVES"; GRUPO DE ROCK LOS LOBOS (LEMBRAM DO FILME E DA MÚSICA "LA BAMBA"?); CANTOR PETER WOLF; DARRYL WAY`S WOLF PROG ROCK - MÚSICA: "WOLF"; VILLA-LOBOS; DADO VILLA-LOBOS - GUITARRISTA DO LEGIÃO URBANA E PARENTE DISTANTE DO MAIS ACLAMADO COMPOSITOR E MAESTRO BRASILEIRO; LEGIÃO URBANA - MÚSICA: "EU ERA UM LOBISOMEM JUVENIL"; EDU LOBO (DISPENSA APRESENTAÇÕES, APESAR DE SER UM COMPOSITOR SUBESTIMADO POR ALGUNS); LOBO (CANTOR ESTADUNIDENSE QUE FEZ MUITO SUCESSO NOS ANOS 70); STEPPENWOLF (PRIMEIROS MÚSICOS A GANHAREM A ALCUNHA DE "HEAVY METAL"); HEART - MÚSICA: "THE WOLF"; EELS - MÚSICA: "LONE WOLF" + EELS - DISCO "HOMBRE LOBO"; WERWOLF - GRUPO DE PROG ROCK ALEMÃO; AMON DUUL 2 - GRUPO  DE PROG ROCK ALEMÃO - DISCO: "WOLF CITY"; EDSON LOBÃO - POLÍTICO BRASILEIRO, EX ARENA (PARTIDO DA DITADURA MILITAR), ENTRE OUTRAS ATIVIDADES, MINISTRO DA ERA PT, POR EXEMPLO; HERMANN HESSE - LIVRO "O LOBO DA ESTEPE"; FILME "O LOBO DA ESTEPE", BASEADO NO LIVRO DE HERMANN HESSE, COM DIREÇÃO DE FRED HAINES; EXPRESSÃO "A IDADE DO LOBO" - QUANDO O HOMEM CHEGA AOS 40 ANOS - TELENOVELA DERIVADA DESSA EXPRESSÃO : "A IDADE DA LOBA", COM BETTY FARIA, QUE, COVENHAMOS, TEM CARA DE LOBA MESMO; FILME "ANA E OS LOBOS", DE CARLOS SAURA; FILME "UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES", DE JOHN LANDIS; FILME "DANÇA COM LOBOS", DE E COM KEVIN COSTNER; FILME "A HORA DO LOBISOMEM", COM O ATOR COREY HAIM ADOLESCENTE (AS GAROTAS SUSPIRAVAM POR ELE!); AMILCAR LOBO, ÚNICO PSIQUIATRA QUE TEVE A CORAGEM DE ASSUMIR QUE TEVE A "CORAGEM" DE PARTICIPAR DE SESSÕES DE TORTURA NA ÉPOCA DA DITADURA MILITAR NO BRASIL -  LINK INTERESSANTE SOBRE AMILCAR LOBO  ESTE LINK TAMBÉM É INTERESSANTE  TEM ESTE OUTRO TAMBÉM ; MÁRIO JORGE LOBO ZAGALLO, O "VELHO LOBO", EX TÉCNICO, EX AUXILIAR TÉCNICO E EX JOGADOR DE FUTEBOL, NESSAS 3 FUNÇÕES, ACUMULOU 4 TÍTULOS EM COPAS DO MUNDO, O ÚNICO SER VIVO QUE JÁ CONSEGUIU ISSO ATÉ A DATA EM QUE PUBLICO ESTA POSTAGEM (2011), ESTOU APENAS DESCREVENDO SEUS FEITOS E NÃO FAZENDO UM JULGAMENTO SOBRE A SUA PERSONALIDADE; FILME FRANCÊS "O PACTO DOS LOBOS", DE CHRISTOPHE GANZ; FILME ESPANHOL "O LOBO", DE MIGUEL COURTOIS; FILME "A COMPANHIA DOS LOBOS", DE NEIL JORDAN (SENSACIONAL!); FILME "OS LOBOS NUNCA CHORAM", DE CARROLL BALLARD (JÁ CLASSICO, APESAR DE SER DE 1983); "LOBO SOLITÁRIO", CLÁSSICO DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS JAPONESAS (MANGÁ), QUE TEVE VÁRIAS ADAPTAÇÕES PARA O CINEMA - CITO "O LOBO SOLITÁRIO - O SAMURAI ASSASSINO" COMO A PRIMEIRA DELAS...

E A LISTA SEGUE PELA INFINITA HIGHWAY... ACEITO ACRÉSCIMOS!

POR QUE SERÁ QUE OS LOBOS SÃO TÃO PRESENTES NA NOSSA CULTURA, NO NOSSO IMAGINÁRIO?

UM ABRAÇO,

JORGE LOBO

sábado, 11 de dezembro de 2010

UM PARALELO ENTRE A TRAJETÓRIA DE GERALDO VANDRÉ E A DA PERSONAGEM DE WINSTON SMITH, DE “1984”, LIVRO DE GEORGE ORWELL – PARTE I

"Ele foi um rei, e brincou com a sorte
Hoje ele é nada, e retrata a morte
Ele foi um rei, e brincou com a sorte
Hoje ele é nada, e retrata a morte

Ele passou por mim, mudo e entristecido
Eu quis gritar seu nome, não pude
Ele olhou pra parede, disse coisas lindas
Disse um poema pra um poste, me veio lágrimas

O que foi que fizeram com ele? Não sei
Só sei que esse trapo, esse homem foi um rei
O que foi que fizeram com ele? Não sei
Só sei que esse trapo, esse homem foi um rei"
("Tributo A Um Rei Esquecido", Benito Di Paula)  OUÇA A MÚSICA

“Duas lágrimas cheirando a gim escorreram de cada lado do nariz. Mas agora estava tudo em paz, tudo ótimo, acabada a luta. Finalmente lograra a vitória sobre si mesmo. Amava o Grande Irmão.” – “1984” – George Orwell

Geraldo Vandré e Winston Smith têm muito em comum. Ambos foram quebrados pela ditadura. Ambos acabaram tendo suas mentes transtornadas, a ponto de Winston Smith chegar a amar o Grande Irmão (símbolo do Estado totalitário de 1984) e Geraldo Vandré a adotar a FAB (símbolo do militarismo brasileiro) como sua protetora, a ponto de compor uma música chamada ”Fabiana”, em homenagem à Força Aérea Brasileira. Winston Smith foi barbaramente torturado pelo regime  de “1984”, livro de George Orwell escrito em 1948 (1948 x 1984, entenderam?) , Geraldo Vandré não admite ter sido torturado, mas suas declarações fazem supor que sim, seja ela tortura física ou psicológica. No “GLOBO NEWS DOSSIÊ” (2010) , entrevistado por Geneton Moraes Netto, Vandré deixou escapar que “guerra é guerra”, “eu não perdi! (risos) ”. Foi um riso envergonhado, sem dúvida, pois ele sabe que perdeu. Além disso, Vandré diz: “tive que passar por um processo de adaptação ao voltar”. Esse processo de “adaptação” foi, na verdade, controlado pelos militares com “tratamento” em clínicas psiquiátricas. Celso Lungaretti em seu blog “Náufrago da Utopia” sustenta a tese de lavagem cerebral. Existem depoimentos de pessoas que viram Vandré em clínicas de Botafogo, bairro do Rio de Janeiro. Geraldo diz que”chegou meio perdido e doente em seu próprio país”, quando foi “acolhido pelos militares, alojado” e que deram a ele tratamento médico. Alguns chegaram a dizer que ele teria teria sido castrado. Existem precedentes: Manoel (não citarei o sobrenome) , militante de esquerda, foi castrado, mas sobreviveu e nem por isso passou para o outro lado, como parece ter sido o caso de Vandré. Digo parece, porque a hipótese de lavagem cerebral é crível, mas minha opinião pessoal é de que ele foi tão maltratado, enlouquecido, pagando por seus “pecados” por ter composto “Caminhando”, a marselhesa brasileira, que ele não teve condições psicológicas de voltar com suas atividades musicais coerentemente, pois não dá para dizer, de forma alguma,  que “Fabiana” é coerente com seu passado, por outro lado, ele se mostra aparentemente lúcido na entrevista e mede nitidamente as palavras. Mas por que Caetano Veloso e Gilberto Gil, que também voltaram do exílio, continuaram produzindo e fazendo sucesso e Vandré paralisou suas atividades?Vandré, em um depoimento, pouco depois de ter chegado ao Brasil, declarou que “a partir de agora, só faria canções de amor e de paz”, Gil declarou: “não tenho mais compromissos com a história”. A minha opinião é de que a ditadura brasileira considerava Vandré mais perigoso que Caetano e Gil. Geraldo admite que sua chegada ao Brasil se deu, na verdade, 58 dias antes de sua entrevista ao “Jornal Nacional” (telejornal da Globo que, à época, apoiava a ditadura militar), em que aparecia como se estivesse acabando de chegar ao Brasil, “tudo muito manipulado”, declarou ele mesmo. Seja como for, parece que o efeito do “tratamento” se metamorfoseou num acordo em que Vandré se comprometeu a nunca dizer a verdade, pois sofreria represálias se contasse a verdade. Winston Smith também foi “acolhido” pela ditadura de “1984”. Virou um pária, assim como Vandré, envergonhado de si mesmo e impotente para lutar. O primeiro nome da personagem do livro foi uma referência à Winston Churchill, homem importantíssimo na Inglaterra. Já Smith, é o sobrenome mais popular da Inglaterra. Geraldo é um nome super comum no Brasil. Já Vandré, vem de uma abreviação do sobrenome do pai de Vandré( Vandrelísio ). Mas aí residem uma diferença e uma semelhança importantes: Vandré virou um nome mítico por causa do próprio Vandré, que compôs o hino de uma geração que lutou contra a ditadura militar, Churchill era um mito pré-existente, mas igualmente um mito. Seja fruto da cultura massificada, que Geraldo criticou na entrevista ao “Dossiê Globo News” ou não, o fato é que Vandré é, ou era, um mito.

LEIA MAIS SOBRE VANDRÉ

Veja a entrevista que Geraldo Vandré concedeu ao Dossiê Globo News

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O POLICIAL NA LITERATURA - PARTE 3


A estratégia do crime

De seu início, com Poe, no século 19, até a atualidade, com autores como os argentinos Ricardo Piglia e Juan José Saer, a literatura policial se torna cada vez mais dominante

Adriano Schwartz
Editor do Mais!


O escritor Ricardo Piglia já disse mais de uma vez que não há nada além de livros de viagens ou histórias policiais. "Narra-se uma viagem ou um crime. Que outra coisa se pode narrar?". A afirmação é intensificada em "Formas Breves", há pouco lançado no Brasil, no qual ele diz que "o gênero policial é o grande gênero moderno [...], inunda o mundo contemporâneo".
Ao contrário do que normalmente se pensa, então, os herdeiros de investigação de Dupin, Sherlock Holmes, padre Brown, Maigret, Poirot, Marlowe, Spade ocupariam um lugar nobre numa potencial e sempre controversa hierarquia do valor literário.
A própria produção do autor argentino – textos como "Respiração Artificial" ou "Nome Falso" – confirma que a hipótese pode ser correta. Os inúmeros títulos policiais de qualidade bastante questionável publicados mensalmente, infestados de convenções e temas estereotipados, parece desmenti-la.
Como a intenção aqui não é criar um enigma insolúvel à espera de mais um improvável detetive, e sim tentar entender um pouco melhor o papel que esse tipo de narrativa exerce atualmente – e por que ele, ao mesmo tempo, consegue ser atacado e defendido de modos tão peremptórios –, vale a pena retomar brevemente a sua origem e lembrar algumas das modificações pelas quais passou, com uma pequena incursão pelas recentes publicações de dois autores brasileiros, Joaquim Nogueira e Luiz Alfredo Garcia-Roza.

Detetive-padrão
O norte-americano Edgar Allan Poe, com Auguste Dupin, personagem de três de seus contos, cria na primeira metade do século 19 (em 1841, com "Os Crimes da Rua Morgue") o primeiro detetive de fato da literatura policial e estabelece alguns padrões que foram seguidos por vários autores: o narrador é um amigo/discípulo do investigador; a reflexão predomina sobre a ação; o final precisa surpreender o leitor.
Inventado pelo inglês Conan Doyle, Sherlock Holmes, o mais famoso dos detetives, segue a fórmula. Suas histórias são contadas por um médico e admirador, o dr. Watson, e ele se vale de sua mente poderosa e de uma minuciosa busca de indícios e pistas que a outros haviam passado despercebidos para solucionar os mais difíceis crimes, sempre de modo inesperado. E também, para muitos, de modo irritante, uma vez que muitas das conclusões de Holmes são extraídas esotericamente, sem que o texto tivesse possibilitado ao leitor chegar à mesma solução por sua conta: é como se a narrativa fosse "desonesta".
Segundo Jorge Luis Borges, grande admirador, crítico e autor do gênero policial, essa é uma falha inaceitável. "Declaração de todos os termos do problema: se a memória não me engana (ou sua falta), a variada infração dessa lei é o defeito preferido de Conan Doyle", afirma o autor em um de seus "mandamentos da narração policial". Raymond Chandler reafirmaria o argumento, em suas "regras para histórias de mistério": "Elas precisam ser honestas com o leitor. Isso é sempre dito, mas o que a frase implica freqüentemente não é levado em conta".
De falha desse tipo sofrem muitos dos desfechos dos casos do padre Brown, de Chesterton, apesar de este ser sempre muito elogiado por Borges. Para ele, o inglês dominava a técnica de transmitir a impressão de que havia algo de irreal por trás do acontecimento criminoso, para logo apresentar uma solução totalmente racional. O método de Brown? Colocar-se no lugar do adversário, transformar-se no adversário. Ainda assim, é muito difícil assimilar sem uma ponta de incredulidade a resolução de "O Homem Invisível", para citar um dos contos mais famosos do autor. O mesmo ocorre com as histórias de dois dos mais prolíficos autores policiais, George Simenon e Agatha Christie.

Sujeira
No final dos anos 20, nos EUA, acontece uma guinada no perfil da ficção policial. Dashiell Hammett cria a figura do detetive durão, mulherengo, de humor corrosivo e moral menos rígida, em textos escritos de modo seco e ambientados muitas vezes nos recantos mais pobres e violentos da cidade. Os contos e cinco romances – principalmente "O Falcão Maltês" e Sam Spade, seu protagonista – mostram que o universo do crime pode ser sujo.
Muitos críticos acreditam que, em decorrência das diferenças entre essa tradição "dura" e a anterior, elas não devam ser misturadas. O fato é que Raymond Chandler, talvez o principal autor dessa segunda linhagem, ataca com insistência predecessores e contemporâneos – Agatha Christie, com especial prazer ("você não engana o leitor escondendo pistas ou tornando falso um personagem, como Christie...") – em seus ensaios.
É com esses escritores que o criador de Philip Marlowe duela: o atrito não significa, portanto, ruptura, e sim modificação. Trata-se ainda de crime, investigação e solução. Só que agora com dúvidas, sexo, dinheiro, fracasso, sangue, morte. Com variações maiores ou menores, é o tipo de narrativa desenvolvida por Hammett e Chandler que predomina na maior parte dos romances policiais "criminosos" que vendem milhares de exemplares anualmente ao redor do planeta.
Do ponto de vista da técnica, a solução apresentada por Poe é das mais seguras. Ao centrar o foco narrativo em um personagem secundário, que acompanha a seqüência de eventos e reflexões do detetive, ele simula a colocação de uma câmera que acompanha por trás os passos do detetive e registra os acontecimentos e discussões, dando ao leitor a sensação de que está "jogando limpo" e de que a resolução do problema estaria também ao alcance dele.
Outra via possível, a de Chandler por exemplo, é deixar o investigador contar a própria história. O leitor vê o que ele vê: acrescenta-se aí a uma percepção semelhante de "honestidade" o conhecimento da subjetividade do personagem, de suas impressões, temores, riscos.
"Vida Pregressa", segundo romance de Joaquim Nogueira, lançado há pouco, utiliza esse padrão. O mérito do autor é torná-lo atrativo pelo uso de um procedimento de reiteração aparentemente banal. O detetive Venício resolve investigar a morte de um homem. Cada pista que ele descobre o leva a uma nova pessoa. Para cada "elemento" interrogado, o personagem explica como chegou até ele, repetindo os passos prévios de sua busca. A narrativa cria assim um efeito de eco distorcido, que vai se amplificando de modo a acompanhar a progressiva complexificação da intriga, ao mesmo tempo em que o espaço geográfico da trama, a cidade de São Paulo, também vai se tornando mais abrangente.
A opção mais comum, mais fácil e mais problemática, no entanto, é a do narrador onisciente. Como apresentar no início da história os pensamentos do personagem que, se saberá ao final, era o misterioso culpado? Talvez a saída mais eficaz para esse dilema seja a de Hammett em "O Falcão Maltês". Apesar de o livro ser narrado em terceira pessoa, o protagonista Sam Spade está sempre em primeiro plano – não há nenhuma cena do romance em que ele não apareça – e, além disso, em momento nenhum penetra-se no "interior" de qualquer personagem: o leitor, assim, toma conhecimento apenas do que o detetive vê ou ouve. Com isso, o autor inclusive aumenta o suspense, já que nunca se sabe como Spade reagirá aos eventos.

Admiração e incômodo

Ainda onisciente, mas em muitos trechos de maneira seletiva, alternando personagens, é o narrador de "O Caso dos Dez Negrinhos", o romance mais conhecido de Agatha Christie. O livro provoca admiração pela engenhosidade da autora, em uma primeira leitura, e incômodo na releitura. Nela, ficam evidentes pensamentos do "vilão" claramente incompatíveis com a premissa básica de que, desde o começo, ele já era o responsável por tudo o que ocorreria.
É essa também a técnica de Luiz Alfredo Garcia-Roza em "Perseguido", a mais recente aventura do delegado Espinosa. O investigador divide a cena com a família do psiquiatra Arthur Nesse – mulher e duas filhas- e com o seu paciente, borgianamente denominado Isidoro Cruz, apesar de ele só aceitar ser chamado de Jonas. Calculada ou não – e esse é um dos fulcros do enredo-, a "imposição" desse segundo nome pelo jovem já indica que, nesta obra, tudo será mais complicado.
Para não estragar o prazer dos muitos leitores que o livro ainda terá, não cabe aqui discutir detalhes do enredo e da labiríntica tematização da paranóia que ele propõe. É necessário dizer, no entanto, que, muito por conta da alternância do foco narrativo, se as "conclusões" de Espinosa no desfecho do texto estivessem corretas, o romance – pelo menos em seu aspecto "policial"- não se sustentaria. O "erro" do detetive, contudo, faz parte do jogo, engrandece-o. Uma das mais impressionantes características de um texto literário é que apenas ele, em sua totalidade, pode desmentir um personagem, um narrador e até mesmo um autor (bem como, aliás, ele pode posteriormente desmentir o desmentido...). Em "Perseguido", Garcia-Roza parece estar brincando com a lembrança que um memorialista em um conto de Borges tem de um dos projetos de um peculiar escritor, Herbert Quain: "... o leitor, inquieto, procura nos capítulos pertinentes e descobre outra solução, que é a verdadeira. O leitor deste livro singular é mais perspicaz que o detetive".
Percebe-se que a suposta contradição entre "convenção" e "grandeza" apontada no início deste texto, a partir do comentário de Piglia, não é irremediável. Na verdade, ela vem sendo contornada há bastante tempo.
Em 1955, a norte-americana Patricia Highsmith publica a primeira história da série "Ripley": "O Talentoso Ripley". Qualquer romance policial se equilibra sobre um fato mínimo – o crime- e três decorrências lógicas – o investigador, o criminoso e a vítima. Uma das estratégias da autora para manipular a convenção é girar o triângulo e centrar a narrativa na segunda delas, em vez de na primeira. Com isso, ela minimiza o suspense e destaca as "motivações" de seu anti-herói e as "conseqüências" de seus atos.

Homenagem

Ainda mais cedo, em 1941, Borges concebe o primeiro de seus três contos policiais que remetem genialmente aos três contos de Poe. Exatos cem anos após o início da publicação de "Os Crimes da Rua Morgue", "O Mistério de Marie Roget" e "A Carta Roubada", o autor argentino começa sua "homenagem" com "Os Jardins dos Caminhos Que Se Bifurcam". Os outros dois contos, escritos nos anos seguintes, são "A Morte e a Bússola" e "Abenjacan, o Bokari, Morto em Seu Labirinto". O último não é tão excepcional quanto os predecessores, mas é nele que se lê que "a solução do mistério é sempre inferior ao mistério".
"Os Jardins..." e "A Morte e a Bússola" mostram que a frase nem sempre é verdadeira, uma vez que Borges dinamita ainda mais as convenções do gênero e faz com que o leitor ora pense estar lendo uma trama centrada na figura do investigador, ora na do criminoso, para, ao final, descobrir que de fato estivera acompanhando, desde o início, as vítimas. O desfecho surpreendente – outro dos "mandamentos" do autor – acontece e é duplicado. Não é à toa que Piglia considera o segundo texto o "Ulisses do conto policial". Aquele outro "mandamento" borgiano, o da "declaração de todos os termos do problema", por exemplo, é cumprido de modo quase maníaco: absolutamente tudo o que é dito na narrativa exerce um papel preciso e fundamental, e não há nenhum evento ou dedução que não tenha uma justificativa previamente introduzida.
Para terminar, deve-se notar que, na literatura atual, a contradição mencionada acima é muitas vezes resolvida com o ocultamento dos termos que geram a "convenção". Assim, em vez de alternar o ângulo de abordagem daquele triângulo – investigador, criminoso e vítima-, o autor esconde ou mascara o próprio fato causador, o crime, que se torna não mais um componente do enredo, e sim um elemento constitutivo da forma narrativa. É o que ocorre nos já citados textos de Piglia ou, para lembrar de outro argentino, nos romances de Juan José Saer. Talvez seja por isso que, para lidar com esse gênero que "inunda o mundo contemporâneo", o autor de "Nome Falso" já tenha afirmado que, "em mais de um sentido, o crítico é o investigador, e o escritor é o criminoso", ou, de outro modo, discutido "a representação paranóica do escritor que apaga suas pegadas e cifra seus crimes, perseguido pelo crítico, decifrador de enigmas".

Folha de São Paulo
, 8 fev. 2004, Mais!